A EFICIÊNCIA DA PALMATÓRIA PELO BOLSO

Por Alessandra Germano

Você entregaria sua boca para um dentista embriagado fazer a extração dos sisos? Toparia voar num avião pilotado por um comandante bêbado? Claro que não, né! Mas sentar no banco do passageiro ao lado de um ébrio motorista armado de quatro rodas, chapas de aço e acelerador? Ah, aí tudo bem, não tem problema!

Mas acredito que isso não é o que diriam as 35 mil pessoas mortas por acidente de trânsito anualmente no Brasil. Muito menos as outras milhares que sobrevivem a traumas e mutilações. Pior ainda é falar em acidente, pois, a palavra acidente significa um evento imprevisto e inevitável.

Então nem adianta inventar desculpas pro “seu guarda” dizendo que depois de entornar todas você não tinha a intenção de atropelar o pedestre. É dolo, sim. O motorista que ingere álcool ou qualquer outra substância entorpecente e se arma de estupidez e velocidade tem sim a intenção de matar. Pelo menos, a intenção precípua de se matar ele tem. O problema é que há outras pessoas nas ruas que não foram avisadas disso.

A maioria de nós brasileiros parece uma incorrigível criança custosa. A simples existência de uma lei, regra ou norma, já parte do pressuposto de como vamos burlá-la: o tal do jeitinho, da malandragem brasileira. Ah, que povo espirituoso! Tudo é festa, muita dança, cervejinha, e acaba em pizza. Ah, que gente dócil, amistosa e hospitaleira! Gente embriagada de alegria!

E quem respeita a regra quando se pode dar um jeitinho é trouxa. E a gente não é babaca, não. A gente é foda. E tem mais: “Não dá nada, não. Porque, aqui no Brasil, ninguém é preso mesmo. Eles tomam nosso carro, mas a gente pega de novo. Eles tiram nossa carteira, mas a gente volta a dirigir. A multa? Ah, a gente vai empurrando com a barriga.”

Já que proibir não adianta, toma a Lei Seca. Ah, bendita Lei Seca! A nova palmatória, corretivo caro para essa criança custosa. Dolorida, dói no bolso. E quando dói no bolso, é porque chegou a hora de a gente para pra pensar. A dor no bolso exercita o cérebro do brasileiro. Afinal, 957 reais não são 10 nem 50 reais, não. Novecentos e cinqüenta e sete reais são NO-VE-CEN-TOS E CIN-QÜEN-TA E SE-TE reais, e isso é muito dinheiro pra gente que mal recebe dois salários mínimos.

E o povo está indignado, revoltado com a nova lei:

- Essa história de amigo da vez não dá certo, não. E como voltar pra casa de ônibus se o transporte público não funciona de madrugada?

- Vai de táxi.

- Mas a corrida é muito cara!

- É o táxi ou os R$ 957,70.

- Poxa, mas com R$ 957,70 dá pra beber mais de 300 latinhas de cerveja! Acho que não vou dirigindo hoje, não.

Então alguns decidiram deixar o carro em casa. Quando questionados por que, óbvio que respondem: “Por causa da multa. Muito cara.” E eu juro que cheguei a cogitar a possibilidade de ser pela segurança, se não a própria, pelo menos a dos outros que não têm culpa desse desvario etílico. Mas não, é o dinheiro mesmo que importa.

Poucos devem saber então que a penalidade por embriaguez ao volante sempre foi cinco vezes a multa: o valor de R$ 957,70. O que Lei Seca tem mais de novo é o nome, porque ela é versão adaptada do art. 165 do Código de Trânsito Brasileiro, de 1997. Mas pedir que as pessoas conheçam o Código de Trânsito Brasileiro já é demais. Um povo que não sabe nem fazer conta, vai gostar de ler?

Quem dera todos tivessem medo da palmatória. Alguns não evitam beber antes de dirigir, o que eles evitam são as blitzes e ainda ligam para os amigos, informando-os onde está “seguro” de passar. É a tal da impunidade, que todo mundo fala mal e deseja a extinção. Mas se puder se beneficiar dela, é outra história. A gente não é mais criança, agora é adolescente. E se quando pequenos ninguém nos mantinha em rédeas curtas, na adolescência é que não vão conseguir mostrar quem é que manda.

A proibição não é contra a bebida, mas contra o motorista bêbado. Todo mundo pode beber e se divertir. Mas se a diversão dessas pessoas estiver intrinsecamente ligada à bebida, então o nosso problema é ainda mais sério.

A Lei Seca ainda está úmida, escorregadia. Tem muita gente derrapando, mas também tem muita gente desviando. Para funcionar, as penalidades têm que ser mais duras. Foi pego no bafômetro: carro retido e liberado com o pagamento de multa no valor do veículo. Isso mesmo, se custa R$ 20 mil, R$ 50 mil, não interessa. Para reaver o veículo, somente mediante pagamento do seu valor. E tem que ir pra cadeia. Lei não se discute, se cumpre. Infringiu, “teje preso”.

Publicado em: on Agosto 22, 2008 at 3:53 pm Comentários (2)

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2 Comentários Leave a comment.

  1. Infelizmente em alguns lugares a lei parece ser contra a bebida sim e acho que isso contribui para as pessoas não verem a importância real da lei. Não dá pra acreditar que cidades sem transporte público depois da meia noite e bares fechando a uma da manhã não são, na verdade, medidas contra o ato de beber. Lei sem infra estrutura não adianta. E deixa o povo puto mesmo.

  2. Bem, eu bebo. Mas ainda prefiro uma “lei contra a bebida” às mortes causadas pela ingestão dela.


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